Parede de Vinil
Artigos para decoração de móveis de escritório.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O tal do bilhete único universitário
Me assusta segunda-feira 27, mais do que qualquer sexta-feira 13, é realmente um dia diabólico, não saia de casa, nem para o trabalho. Quem vos aconselha cometeu o erro de ir ao Méier nessa tarde.
O calor era tão intenso como se o Sol estivesse acertando a minha frágil cabeça com um machado de fogo, mas, mesmo assim, eu não intimidei-me e me aventurei a pegar o trem fluminense que é um dos meios de transportes mais insalubres que existem em todo o Sistema Solar: o aperto, o cheiro de óleo queimado e a falta de ar condicionado se tornam mortais quando a temperatura passa dos trinta graus Celsius, de modo que só baratas e algumas bactérias resistem. Os três anos de CEFET, pegando trem em Deodoro (também conhecido como Diodoro) e soltando em São Cristóvão, fizeram de mim uma barata.
Ao comprar meu bilhete eu sempre me pegunto porque nenhum funcionário jamais responde o meu "bom dia!" e, como é de praxe, eu criei mil e uma teorias na viagem de Marechal até o Méier. É engraçado como nossa cabeça é tão boa em criar histórias enquanto estamos em movimento, é como um prêmio de consolação aos que, assim como eu, moram no subúrbio e estudam na PUC. Nesse meio tempo imaginei que, como os bilheteiros da SuperVia ficam restritos a passar o dia dentro de um cubículo de um metro quadrado, suas esposas fazem a festa enquanto eles estão no trabalho, elas podem transar dentro da estação ou na batata de Marechal que eles não vão ver. Essas reflexões me deixaram até compadecido com eles.
Chegando no Méier, os braços bronzeados como de um caminhoneiro, fui, talvez pela quinta ou sexta vez, ao Terminal Rodoviário Américo Ayres, onde eu deveria pegar meu bilhete único universitário. Acontece que não bastou eu voltar porque eu não tinha a carteirinha da UNE, não bastou eu voltar porque minha declaração de bolsa do PROUNI tinha mais de dois meses, não bastou eu voltar porque eu não tinha levado a minha carteirinha da UNE (dessa vez já feita e apresentada) para me identificar na hora de buscar meu bilhete único (agora a carteirinha da UNE é mais importante para minha identificação que a minha própria identidade) e por mais uns três motivos que giram em torno de declarações e carteirinha da UNE, mas eles tiveram que me fazer voltar mais uma vez porque o meu e-mail não estava batendo com o do meu antigo bilhete único intermunicipal.
Na viagem de volta, eu já tinha o que pensar: "por que ninguém me avisou qual era o meu e-mail?", visto que eu já tinha informado que eu já tive um bilhete único. Mas pelo contrário, eles me deram um telefone e me mandaram voltar pra Guadalupe para telefonar (visto que não era 0800 e eu não tinha cartão telefônico e nem saberia onde comprar), pra aí sim descobrir qual era o meu e-mail e aí então voltar lá e registrar o endereço correto, coisa que poderiam muito bem ter feito um uma fração de minuto. Mas nada disso me fez perder a paciência, o que me deixou realmente irritado foi a maneira como me trataram, ou melhor, me destrataram enquanto fui atendido, se ao menos dissessem com um belo sorriso no rosto: "ah, olha só, você se fodeu hein Iguinho!" eu voltaria para a minha casa, não feliz, mas conformado.
É tão difícil ganhar um benefício do governo, quantos milhões de empecilhos, não basta você levar sua documentação, tem que jogar tarot, fazer uma estrelinha, coçar o cu, por que não ligam logo e mudam meu e-mail cadastrado? Os únicos bairros onde você pode fazer seu bilhete único, como exceção do Méier, ficam na zona sul, que estudante do PROUNI mora ali por perto? Eu acho que só de passagens até o Terminal Rodoviário Américo Ayres já se foi toda a economia que eu faria com esse cartãozinho, aliás, não conheço ninguém que o tenha, talvez conseguir esse bilhete seja mais difícil que passar no vestibular.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sinestesia
Um dia pensei que seriam cores
Os tons
Saídos das cordas do meu violão.
Nesse dia pintei atores
Nos quadros
Do meu som.
A menina muda falou quando sorriu
Que gostou do que viu
Porque soava muito
Bem.
O menino cego disse
Que tu não viste
Porque não escutaste
Bem.
Cada nota, uma foto,
Cada música, um filme.
Apavora-me o timbre.
Manhãs frias
De todas as fórmulas do amor
As manhãs frias sempre me fazem lembrar de você.
Suas mãos frias
Do ar na sala de informática.
O frio que vinha da janela
Na aula de matemática.
O casaco frio do colégio
Que não agasalhava.
O frio na barriga no prédio
Em que a gente se beijava.
O Sol frio
No caminho para a escola.
O quão frio tinha que ser
Para passar cola.
O jeito frio que a professora falava
Fazia ninar.
O jeito frio que a gente se olhava
na hora de terminar.
Incoerência referencial
Tive num estalo
O pensamento do futuro
É dia quando é claro
E noite quando escuro.
No espaço é sempre noite,
Por isso ninguém vai pra praia.
A parada é ir pra boite
E cair na gandaia.
Aqui em casa era diferente,
Mas aí a luz queimou.
Agora não assisto mais Tela Quente
Se for bagulho de terror.
Ensaio sobre o amor
O banheiro é realmente um lugar especial quando se tem doze anos. Ocupa o lugar de motéis e todo gosto de lugares imbuídos de alta sexualidade e não é de se admirar que os aromas "banheiris" gerem impressões tão fortes, seja lavando a cabeça com Johnson's Baby ou então educando as axilas com Três Marchand, cujo cheiro me dá uma dorzinha satisfatória no peito, como que fosse um livro explicando a lógica por trás do sadomasoquismo.
Na ocasião em que usava Três Marchand estava experimentando as minhas primeiras decepções amorosas, era início do ano de dois mil e seis e eu estava talvez doente por causa de alguma paixão juvenil e como todos sabem, os doentes muitas vezes ficam internados e no meu caso fiquei internado em casa mesmo, no banheiro para ser mais preciso, por algumas semanas exposto à um tratamento mais comum aos adolescentes que as próprias espinhas. Na época, é claro que eu não percebia a beleza dessa cena, mas, se Proust estivava realmente correto, e ele tinha um bigode respeitável, esse é o amor na sua forma mais ariana: desilusão.
Proust disse: "só se ama o que não se possui completamente", ora, só se possui alguém por completo pelo amor, ainda que eu fosse uma espécie de rei Xariar pobre e comprasse minha esposa por vinte cabritos (desconheço o câmbio correto) eu só a teria por completo, se fosse por ela amado. Sendo assim, o amor não pode ser recíproco, ou você ama, ou é amado, inexistindo a simultaneidade. E algo que todos já devem ter observado é o quanto o encanto cai depois que vemos nosso interesse sendo correspondido, como se por análise e reposicionamento de sentimentos feito pelo diretor geral administrativo do destino.
O que mais eu posso dizer ser o amor além de um jogo de conquista? Ele nasce e morre sem se reproduzir e, talvez por ironia, reprodução é sua marca. O que há de surpreendente em abandonar ou ser abandonado? Se o amor é volúvel, enganador e libertino, o que seria o homem movido pelo coração e não pela razão?
A amizade, em contrapartida, é um sentimento mútuo de empatia gerado por semelhanças, interesses comuns e que une as pessoas muitas vezes pelo resto da vida. Eu me pergunto: não seria o caso de estarmos confundindo amor com amizade?
Morfologia voltada para o estudo das profissões
O advogado advoga,
O médico medica
E o ator, à toa.
O pedreiro quebra as pedras,
O torneiro opera o torno
E o banqueiro puxa o banco.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Escrever com sono faz bem, é o vômito do bêbado: põe-se tudo para fora e depois se dorme tranquilamente.
Um pensamento, na verdade uma perspectiva do Raskólnikov numa passagem ao final da primeira parte de seis me sobressaltou aos olhos. Em cuja, ele se enfurece ao saber da irmã, vulgo mercenária, às vésperas de casamento com um homem mais velho e bem-sucedido, Lujín. Mas não é com a irmã que ele se enraivece, e aí que está o contraste com o pensamento popular, mas sim com o noivo, que estaria, segundo ele, aproveitando-se de um desfavorecimento financeiro de Sonietchka, esse é o nome de sua irmã. Fiquei pensando sobre isso durante dois intervalos preguiçosos ao "leg press", que, diga-se de passagem, é mais confortável que o meu antigo sofá.
Deduzi, por fim, que o amor pode ser alienado, sempre que há envolvimento com alguém tendo em vista benefício financeiro ou social, vende-se o amor, mas não se redireciona, tornando o amor inutilizável, amputado, trancafiado, nunca podendo pertencer ao verdadeiro dono. E não raro isso acorre hoje em dia, porque amar deixou de ser uma necessidade, fazer sexo é uma necessidade, assim como sair à noite, se divertir, beber, manter os braços fortes e a vitamina com creatina, ignorando a alma faminta e o coração vazio.
Se amar deixa de ser uma necessidade, outras necessidades vêm à tona como a de se alimentar, se vestir e o casamento se transforma em contrato e o amor, em probabilidade de alta na bolsa. Não sabemos mais amar.
Se amar deixa de ser uma necessidade, outras necessidades vêm à tona como a de se alimentar, se vestir e o casamento se transforma em contrato e o amor, em probabilidade de alta na bolsa. Não sabemos mais amar.
Qualquer um pode viver sem nunca ao menos ter dividido uma casquinha no McDonalds, brincado de cabaninha com a roupa de cama ou escrito um poema de duas estrofes, as grandes aspirações contemporâneas tem tijolos, maçãs ou cospem fumaça, são preocupações com coisas do cotidiano: moradia, eletrodomésticos, locomoção.
Assim são as coisas do cotidiano: quando há necessidade, se compra, nada mais natural, por acaso um grande comprador deveria receber um título de dignidade? A Forbes me é tão útil quanto o ranking dos meninos catarrentos da estratosfera de Plutão, que é um ex-planeta para deixar expresso o nível de insignificância. Pouco importa a diferença entre um castelo de cristal e um poleiro se está chovendo.
Assim são as coisas do cotidiano: quando há necessidade, se compra, nada mais natural, por acaso um grande comprador deveria receber um título de dignidade? A Forbes me é tão útil quanto o ranking dos meninos catarrentos da estratosfera de Plutão, que é um ex-planeta para deixar expresso o nível de insignificância. Pouco importa a diferença entre um castelo de cristal e um poleiro se está chovendo.
As coisas do espírito, em contrapartida, pode-se morrer sem nunca as ter experimentado, mas não se pode morrer tendo experimentado-as, pois elas que mantém o indivíduo vivo, tente se lembrar de quem era o homem mais rico do mundo na época de Aristóteles, Napoleão, Shakespeare ou ate Lennon e você vai entender o que eu estou dizendo, são todos homens que amaram alguma coisa, uma ideia, acima de todas as que podiam tocar e isso os mantém presentes até hoje.
Após essa ladainha toda temo ter ficado chato, mas penso: o interesse é uma barganha, na qual vende-se tudo o que se pode ter, por tudo o que terá. Sonietchka terá uma vida confortável financeiramente, mas não ganhou isso, trocou por tudo o que uma mulher do século XIX podia esperar: um amor, trocou coisas do cotidiano por coisas do espírito, para Raskólnikov um negócio de Bangladesh (em oposição à negócio da China), mostrando já naquela época vocação especial para antecessora de Luciana Gimenez.
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