terça-feira, 21 de outubro de 2014

Para Raquel




Não amanheça nunca
Clamam todos os discos, amantes e filmes
Mas a manhã é mãe imperiosa
Como todos aqueles que a ilumine.

Se por minha natureza,
Aviltre de toda beleza,
O Universo me fez de sonhar às três
                 (É pecado falar em Deus hoje em dia)
Por que ei de acordar às seis?

Mas a mãe é manhã imperiosa,
Pontual, infalível e barulhenta como um rádio:
Me lasca infame à Leocádio.

E dá-lhe oito horas,
Meus olhos batendo epilépticos,
Peixes ardilosos fora d'água.

À dez eu faço uma reza,
Malévolo triturador torturando subversivo,
Mas não nego, não confesso, nunca vou me curar,
Porque no sonho guardo o teu calor, 
E tudo o que lhe é alusivo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Relatórios de ações

Ninguém é feliz na Rua Sete de Setembro às 15:32h. Não no dia 2 de Maio, uma sexta. A coluna doí e os olhos repicam, ora vagando pelo o teto, em forro PVC de madeira, e a cabeça acenando para o feriado, ora apontando para o canto da tela: "15:32h, aquele maldito relógio não anda!" - pensou ele.

Sabia que hoje à noite a veria, sabia que passara toda a quinta, feriado, com ela, talvez soubesse até que a vida é bela, mas... De que valia? Eram 15:32h e aquele horário era insuportável, porque ficava espremido como uma linguiça entre o horário de almoço, em que comia um belo bife acebolado na Rua do Rosário, onde a garçonete sempre lhe sorria, e o horário do café, em que se juntava com os amigos para um croquete, na Gonçalves Dias, restaurante Pavelka, julgava ser talvez não o mais gostoso, mas com toda certeza o croquete mais caro de todo o Rio de Janeiro.

Em suma, era o exato horário em que tinha que trabalhar. Pudera ele ir todos os dias para a Sete de Setembro para comer bifes e croquetes, mas tinha que trabalhar, digitar relatórios e mais relatórios sobre aquelas porras de ações ON e PN. Por que fazia aquilo? Tinha 38 anos, 2 filhos e alguns cabelos brancos, mas não tinha certeza se era aquilo que deveria ter feito da vida. Talvez devesse ser médico, talvez engenheiro ou talvez devesse ser feliz.

Mas não era feliz? Era, quando ela estava perto, quando longe, sua vida era toda desgraça. Aqueles bracinhos magros que ele apertava e trazia junto ao corpo com avidez eram alvos como as dezenas de folhas da impressora, que fitava estagnado; eram carreiras de cocaína. Cheirava-os, se embrenhava neles como se nada mais houvesse.

Não podia ser de outra forma: sua ex-mulher, uma vaca, era a esposa perfeita: sabia se manter calada em ambientes sociais, tinha faculdade, se impressionava facilmente com presentes caros e sempre o traía bem escondido com pessoas de baixo escalão, sabia que se o casamento deles não havia dado certo, nenhum outro daria.

Foi quando ela apareceu: aquela criatura sorridente de bochechas rosadas, que andava tropeçando e fazia tudo errado.

É natural que se valorize coisas que surgiram por sua própria vontade: o homem é egocêntrico. Ele se orgulhava de seu trabalho, sua formação, a casa que construíra, mas nada disso jamais lhe fizera diferença, do mesmo jeito que era ignorado na casa de seus pais, quando criança, era ignorado agora pelas paredes de uma casa bem maior, que o oprimiam ainda mais. É raro que se dê importância a uma vontade superior: ela surgira em sua vida por qualquer conspiração do Universo, se amavam, ele era feliz, mas tinha vergonha de terem ido para a cama logo no primeiro encontro...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Síndrome do Braço-Contracionismo Lateral

                                     



Em meados da década de 20, do século passado, Sigmund Freud, pai da psicanálise descreveu, em um de seus ensaios, trabalho inédito, os sintomas de um terrível distúrbio psicológico que vinha afetando pessoas das mais diversas classes sociais em todo o mundo, reflexo da massiva utilização de redes sociais como o Facebook e o Orkut, na época, Freud o nomeou Síndrome do Braço-Contracionismo Lateral ou, simplesmente, SBCL.

É provável que pareça ao leitor uma cena de filme de humor, ou terror, porém restou constatado que ao terem contato com qualquer espécie de luz frontal, como a dos flashes de câmeras, as vítimas da SBCL, automaticamente, se colocavam em posição lateral, forçavam um grande sorriso, porém forçavam ainda mais o braço que estava de frente para a projeção luminosa.

Uma das consequências dessa reação à luminosidade frontal era que muitos pacientes, portadores da SBCL, morriam ao atravessar as ruas, pois sorriam e forçavam o braço, mantendo-se estáticos, quando em contato com faróis de veículos.

A pior de todas as consequências, no entanto, dava-se ao disparar de máquinas fotográficas que estavam configuradas para a noite, com flash, pois, muitas vezes, essa fotos eram postadas na internet e se via claramente que o indivíduo estava forçando o braço, pois suas veias saltavam à garganta, sua face ficava avermelhada demais e o braço ficava em dobrado em um ângulo específico, que facilitava a contração.

Este distúrbio vinha arrasando populações inteiras, principalmente no Leste Europeu, a uma taxa crescente, só houve uma expressiva redução no número de mortes relacionados à SBCL quando o grande psicanalista inglês Donald Woods Winnicott desenvolveu um tratamento eficaz no combate a esta grave enfermidade, realizado em duas etapas: a primeira, mais difícil, consistia na exclusão plena do Facebook; após ter sido executada com êxito, poderia-se avançar para a segunda fase, na qual o enfermo deveria, basicamente, utilizando os termos técnicos, "tomar meia dúzia de tapa na cara", esses tapas na cara deveriam ser distribuídos apenas por um médico credenciado pelo Conselho Regional de Medicina, CRM.

É triste, mas, ainda hoje, algumas pessoas sofrem de SBCL, porém tal moléstia tem cura. Se você possui ou conhece alguém que seja afetado por esta terrível doença, consulte um médico.



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Cicatriz

Era inegável desconforto:
o repto daquela máscara
que nem lhe servia ao rosto.

Que infeliz doença,
estranho sotaque ou
heroica aventura
- eu pensava -
conteria naquela perna nua?

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Você e a cidade




Você praça,
Acho graça.

Você rua,
Vejo nua.

Você prédio
É um tédio.

Você casa
Me apraza.

Você largo,
Desembargo.

Você museu
Foi quem benzeu.

Você poste
Me arroste.

Você estação
Me dê sua mão.

Vocês abrolhos
Tem dois olhos.

Você cidade
Hoje é saudade.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Soneto ao domingo ou Soweto aos domingos




Fumaça de churrasco
sublevando-se do terreno vizinho,
O CD do Soweto já foi repetido tantas vezes
que parece tocar sozinho.

Se Faustão está passando,
me traga um antidepressivo.
Se a cabeça já está na segunda,
isso só pode ser nocivo.

Assim como o medo dói mais que a vacina,
o domingo tende a ser pior que a segunda,
pois ele a absorve emaranhada nos cabelos da bunda.

Por isso odeio o domingo, um dia diferente:
com consistência de saco
e que já vem com um caralho na frente.

Quadrados




Gosto de comer barras de chocolate
Quadradinho por quadradinho,
Guardando sempre a outra metade,
E não acho isso uma banalidade,
Posto que nesses sessenta dias de férias,
Uma ociosidade disfarçada frente à tela,
São os quadradinhos mais gostosos
Que não me saltam à janela.