segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sinestesia




Um dia pensei que seriam cores
Os tons
Saídos das cordas do meu violão.

Nesse dia pintei atores
Nos quadros
Do meu som.

A menina muda falou quando sorriu
Que gostou do que viu
Porque soava muito
Bem.

O menino cego disse
Que tu não viste
Porque não escutaste
Bem.

Cada nota, uma foto,
Cada música, um filme.
Apavora-me o timbre.

Manhãs frias





De todas as fórmulas do amor
As manhãs frias sempre me fazem lembrar de você.

Suas mãos frias
Do ar na sala de informática.
O frio que vinha da janela
Na aula de matemática.

O casaco frio do colégio
Que não agasalhava.
O frio na barriga no prédio
Em que a gente se beijava.

O Sol frio
No caminho para a escola.
O quão frio eu tinha que ser
Para te passar cola.

O jeito frio que a professora falava
Fazia ninar.
A maneira fria que você me olhava
Na hora de terminar.

Incoerência referencial




Tive num estalo
O pensamento do futuro
É dia quando é claro
E noite quando escuro.

No espaço é sempre noite,
Por isso ninguém vai pra praia.
A parada é ir pra boite
E cair na gandaia.

Aqui em casa era diferente,
Mas aí a luz queimou.
Agora não assisto mais Tela Quente
Se for bagulho de terror.

Ensaio sobre o amor




O banheiro é realmente um lugar especial quando se tem doze anos. Ocupa o lugar de motéis e todo gosto de lugares imbuídos de alta sexualidade e não é de se admirar que os aromas "banheiris" gerem impressões tão fortes, seja  lavando a cabeça com Johnson's Baby ou então educando as axilas com Três Marchand, cujo cheiro me dá uma dorzinha satisfatória no peito, como que fosse um livro explicando a lógica por trás do sadomasoquismo.

Na ocasião em que usava Três Marchand estava experimentando as minhas primeiras decepções amorosas, era início do ano de dois mil e seis e eu estava talvez doente por causa de alguma paixão juvenil e como todos sabem, os doentes muitas vezes ficam internados e no meu caso fiquei internado em casa mesmo, no banheiro para ser mais preciso, por algumas semanas exposto à um tratamento mais comum aos adolescentes que as próprias espinhas. Na época, é claro que eu não percebia a beleza dessa cena, mas, se Proust estivava realmente correto, e ele tinha um bigode respeitável, esse é o amor na sua forma mais ariana: desilusão.

Proust disse: "só se ama o que não se possui completamente", ora, só se possui alguém por completo pelo amor, ainda que eu fosse uma espécie de rei Xariar pobre e comprasse minha esposa por vinte cabritos (desconheço o câmbio correto) eu só a teria por completo, se fosse por ela amado. Sendo assim, o amor não pode ser recíproco, ou você ama, ou é amado, inexistindo a simultaneidade. E algo que todos já devem ter observado é o quanto o encanto cai depois que vemos nosso interesse sendo correspondido, como se por análise e reposicionamento de sentimentos feito pelo diretor geral administrativo do destino.

O que mais eu posso dizer ser o amor além de um jogo de conquista? Ele nasce e morre sem se reproduzir e, talvez por ironia, reprodução é sua marca. O que há de surpreendente em abandonar ou ser abandonado? Se o amor é volúvel, enganador e libertino, o que seria o homem movido pelo coração e não pela razão?

A amizade, em contrapartida, é um sentimento mútuo de empatia gerado por semelhanças, interesses comuns e que une as pessoas muitas vezes pelo resto da vida. Eu me pergunto: não seria o caso de estarmos confundindo amor com amizade?

Morfologia voltada para o estudo das profissões




O advogado advoga,
O médico medica
E o ator, à toa.

O pedreiro quebra as pedras,
O torneiro opera o torno
E o banqueiro puxa o banco.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Escrever com sono faz bem, é o vômito do bêbado: põe-se tudo para fora e depois se dorme tranquilamente.




Para ficar com mamilos tenros para esse verão, decidi entrar para a academia, não sou do tipo masoquista que sente prazer ao ver o braço quase explodir sob uma barra, mas eu gosto dos intervalos inter-exercícios. Minha natureza preguiçosa faz com que eu descanse muito entre as séries de exercícios e que eu passeie bastante entre as máquinas antes de finalmente me acomodar em alguma, sobrando bastante tempo para reflexões, em especial sobre o livro que estou lendo: Crime e Castigo, do Dostoiévski, cujo nome me enrola a língua e ao ser pronunciado o resultado é algo próximo à Doisdoiévis.

Um pensamento, na verdade uma perspectiva do Raskólnikov numa passagem ao final da primeira parte de seis me sobressaltou aos olhos. Em cuja, ele se enfurece ao saber da irmã, vulgo mercenária, às vésperas de casamento com um homem mais velho e bem-sucedido, Lujín. Mas não é com a irmã que ele se enraivece, e aí que está o contraste com o pensamento popular, mas sim com o noivo, que estaria, segundo ele, aproveitando-se de um desfavorecimento financeiro de Sonietchka, esse é o nome de sua irmã. Fiquei pensando sobre isso durante dois intervalos preguiçosos ao "leg press", que, diga-se de passagem, é mais confortável que o meu antigo sofá.

Deduzi, por fim, que o amor pode ser alienado, sempre que há envolvimento com alguém tendo em vista benefício financeiro ou social, vende-se o amor, mas não se redireciona, tornando o amor inutilizável, amputado, trancafiado, nunca podendo pertencer ao verdadeiro dono. E não raro isso acorre hoje em dia, porque amar deixou de ser uma necessidade, fazer sexo é uma necessidade, assim como sair à noite, se divertir, beber, manter os braços fortes e a vitamina com creatina, ignorando a alma faminta e o coração vazio.

Se amar deixa de ser uma necessidade, outras necessidades vêm à tona como a de se alimentar, se vestir e o casamento se transforma em contrato e o amor, em probabilidade de alta na bolsa. Não sabemos mais amar.

Qualquer um pode viver sem nunca ao menos ter dividido uma casquinha no McDonalds, brincado de cabaninha com a roupa de cama ou escrito um poema de duas estrofes, as grandes aspirações contemporâneas tem tijolos, maçãs ou cospem fumaça, são preocupações com coisas do cotidiano: moradia, eletrodomésticos, locomoção.

Assim são as coisas do cotidiano: quando há necessidade, se compra, nada mais natural, por acaso um grande comprador deveria receber um título de dignidade? A Forbes me é tão útil quanto o ranking dos meninos catarrentos da estratosfera de Plutão, que é um ex-planeta para deixar expresso o nível de insignificância. Pouco importa a diferença entre um castelo de cristal e um poleiro se está chovendo.

As coisas do espírito, em contrapartida, pode-se morrer sem nunca as ter experimentado, mas não se pode morrer tendo experimentado-as, pois elas que mantém o indivíduo vivo, tente se lembrar de quem era o homem mais rico do mundo na época de Aristóteles, Napoleão, Shakespeare ou ate Lennon e você vai entender o que eu estou dizendo, são todos homens que amaram alguma coisa, uma ideia, acima de todas as que podiam tocar e isso os mantém presentes até hoje. 

Após essa ladainha toda temo ter ficado chato, mas penso: o interesse é uma barganha, na qual vende-se tudo o que se pode ter, por tudo o que terá. Sonietchka terá uma vida confortável financeiramente, mas não ganhou isso, trocou por tudo o que uma mulher do século XIX podia esperar: um amor, trocou coisas do cotidiano por coisas do espírito, para Raskólnikov um negócio de Bangladesh (em oposição à negócio da China), mostrando já naquela época vocação especial para antecessora de Luciana Gimenez.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Caramunalha




Meu andar ébrio, à toa na rua,
Minha cabeça loira, já seminua
Não mostram diligência
E nem tampouco adolescência
Que pareceria mistura tão surreal.

Meu blusão desabotoado, manchado de café,
Meu dedão suado, como de quem anda a pé
Não mostram, eu confesso,
Nenhum sucesso,
Algo tão subjetivo que para mostrar não é preciso ter.

Meu desfecho, não tem nada de forte,
Não é uma conclusão, mas sim a morte
De um poema, que, assim como eu e você,
Só surgiu para falar alguma coisa.
Que não precisa rimar,
E não precisa ganhar,
Não precisa ser cristão,
Não precisa falar com o coração,
Basta dizer algo de mim,
Porque, no final, é o meio que justifica o fim.